Tânia Britto - com o microfone - diz que fará governo compartilhado. Foto: Gicult
Autonomia ou submissão?
Apesar desse discurso da oposição durante a campanha, Tânia não teve dificuldades para vencer a eleição nesse município de médio porte da Bahia, berço político de muitas lideranças tradicionais que foram derrotadas no pleito eleitoral deste ano. Isto quer dizer, então, que 1) os eleitores não se importam com uma prefeita submissa ou 2) não acreditaram que ela será manipulada? A manutenção da popularidade e credibilidade da prefeita, durante o mandato a partir de janeiro de 2013, vai depender da resposta prática que ela apresentar para estas duas questões. Não será uma decisão fácil. O caminho a seguir vai definir o perfil da gestão de Tânia e vai ter muitas implicações nas relações entre as forças políticas que formarão seu governo e, portanto, sobre o papel de Roberto Britto, se de um colaborador ou condutor. De um jeito ou de outro, ela não vai agradar a todos. A sua escolha, de autonomia ou submissão, vai ter impacto junto à opinião pública e, a depender do caso, alimentar o discurso opositor.
Grande teste
O grande teste vai ser a formação de seu secretariado. Quem vai indicar a maioria destes auxiliares de primeiro escalão? A prefeita vai indicar os cargos chaves de sua gestão? Quem vai ocupar a Secretaria da Fazenda, a de Saúde, Educação, Desenvolvimento Social e de Infraestrutura? E as de atuação interna, que dão celeridade administrativa e se ocupam da legalidade e ética da gestão, como a Controladoria, Procuradoria e Secretaria de Administração? Qual o critério para determinar a força de cada grupo na estrutura do governo? A “cara” do futuro governo e a perspectiva de qualidade vai aparecer a partir da escolha dos dirigentes destas pastas, umas de execução direta junto à comunidade e outras essenciais para a legitimidade jurídica dos atos do executivo. É bom não esquecer que os dois últimos prefeitos tiveram contas reprovadas pelo TCM.
Os espaços dos aliados
Alguns podem até pensar que não importa a ligação política dos secretários, ou seja, quem os indicou. Mas as coisas não funcionam assim. Todo partido ou liderança política quer ter seu espaço na máquina administra, quer se sentir “prestigiado” pelos esforços dedicados na eleição. Apesar disso, as indicações pessoais da prefeita (no caso de Jequié) indica seu poder inicial junto ao governo. É claro que cada secretário não deve fazer seu governo particular na estrutura de sua jurisdição, mas todos querem se destacar. Este é um comportamento normal de qualquer pessoa que assume um cargo público. O erro será podar, boicotar, travar a ação de algumas pastas de aliados para eles não crescerem, como tem ocorrido em algumas gestões em Jequié. Este procedimento, além de causar conflito interno, também prejudica a população. Só para lembrar, nos casos de rompimento político ou de reforma administrativa (troca de auxiliares), ficam os secretários e detentores de cargos que estiverem em consonância com quem detém a caneta e também o poder de decisão.
“Fazer sem roubar”
Nos dias atuais, além de exigir eficiência e competência técnica dos ocupantes dos cargos, a sociedade está exigindo “ficha limpa”, gente com nome limpo na praça. Mesmo que o eleito ou eleita não tenha falado muito sobre esta questão durante a campanha, ninguém mais aceita aquela ideia do “rouba, mas faz”. O lema agora é “fazer sem roubar” o erário público, sem desviar verbas, sem corrupção. Portanto, recomenda-se não escalar qualquer um para vestir a camisa de um cargo no executivo.
A lição dos dois exemplos
Para concluir essa reflexão, apresentaremos dois exemplos de governo que surgiram sob a desconfiança e duras críticas da oposição, mas com resultados diferentes devido ao caminho (concepção e método de gestão)seguido por cada liderança:
1) Na eleição de 2004, em Jequié, durante a eleição municipal, os opositores diziam que se Reinaldo Pinheiro (PP) e sua vice, Rita Rodrigues (PCdoB), fossem eleitos, o ex-prefeito da época, padrinho da campanha, iria comandar a gestão e anular a vice. Sem levar em conta o que diziam, o prefeito da época criou a Secretaria de Assuntos Políticos e outros cargos para o governo do futuro gestor. De imediato houve conflito com a futura vice, na época vereadora, que votou contra uma secretaria que não foi objeto de debate anterior, inclusive porque falaram em diminuição da estrutura da máquina. Além disso, o patrono da coligação praticamente “montou” o governo de seu sucessor, inclusive com ele na polêmica secretaria criada. Resultado: Como fez em parte tudo o que a oposição falava, o governo começou fragilizado e não se recuperou do desgaste, o que culminou com o esfacelamento da aliança. Na conjuntura da época, quem se sentia forte “montou” o governo e também praticamente “matou” a administração no nascedouro, isto porque quem detinha a caneta não se impôs logo no primeiro momento. Naquele período, Roberto conseguiu se salvar ao se eleger deputado dois anos depois, como tinha planejado.
2) Na eleição presidencial de 2010, a ex-ministra do presidente Lula, Dilma Rousseff (PT), foi lançada como candidata a presidente por seu líder, sob ataques da oposição e também sem a adesão imediata de seu partido, já que ela não tinha experiência eleitoral e estava com baixa intenção de votos. Mesmo assim, Dilma venceu todo tipo de preconceitos e as críticas de que seria comandada por seu padrinho político. Depois da vitória, Lula teve grande influência na indicação dos integrantes de seu ministério. Porém, aos poucos, diante da crise e impasses que surgiram, Dilma aos poucos foi montando um ministério com sua cara ao demitir vários auxiliares do primeiro escalão da gestão anterior que apresentaram algum problema ou os novos que demonstraram alguma insuficiência. Em alguns casos, ela cortou na própria carne ao demitir auxiliares próximos (até do PT), inclusive por denúncias relacionadas a questões éticas. Resultado: Dilma se impôs, ampliou sua popularidade, estabeleceu um perfil de sua gestão e mantém o governo em alta, mesmo diante dos desafios econômicos e políticos. Com esta postura autônoma, todos os aliados estão se beneficiando politicamente, inclusive o presidente Lula e o PT.
Casamento com a realidade
Como o namoro político é bem diferente do casamento com a realidade - desafios políticos e administrativos para gerir uma cidade do porte de Jequié -, os munícipes estão agora na expectativa de saber o perfil da futura gestão de médica Tânia Britto, uma liderança emergente que precisa mostrar o caminho que vai seguir.
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