quarta-feira, 14 de março de 2012

Na Globo, o mundo encantado de Ricardo Teixeira





Ricardo Teixeira renunciou ao cargo da CBF depois de críticas.
Ricardo Teixeira renunciou ao cargo da CBF depois de críticas.
Quem assistiu ao Jornal Nacional na segunda-feira 12 não teve propriamente uma surpresa, mas talvez tenha dado boas gargalhadas ao ver a reportagem sobre a queda de Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF. Como muitos disseram no Twitter na manhã do dia seguinte, o espaço dado ao cartola parecia mais o Arquivo Confidencial do Faustão do que propriamente uma reportagem jornalística.

A introdução de Patricia Poeta já dava as proporções: “Ao longo de uma gestão de mais de duas décadas, a seleção tricampeã se tornou penta. Teixeira colecionou vitórias, mas também desafetos. E enfrentou denúncias”.

Ou seja: as denúncias ficariam entaladas em apenas 22 segundos no final da reportagem, que teve ao todo 3:39 minutos. E com todas as ressalvas: “Ao longo da carreira, Ricardo Teixeira foi alvo de denúncias. Diante de todas elas, Teixeira sempre disse que as acusações eram falsas e tinham caráter político”, afirmou o Jornal Nacional.

E prosseguiu: “A denúncia mais contundente foi a de que ele e um grupo ligado à Fifa teriam recebido dinheiro de forma irregular nas negociações de uma empresa de marketing esportivo, em 1999. Viu os processos serem arquivados pela Justiça.”

Neste trecho, a reportagem omite um detalhe (risos) importantíssimo: é verdade, sim, que o processo do caso da empresa de marketing esportivo, a ISL, foi arquivado pela Justiça suíça. Porém, segundo a BBC britânica, o arquivamento só ocorreu porque Teixeira e os outros envolvidos, seu ex-sogro João Havelange e o atual presidente da Fifa Joseph Blatter, assumiram terem cobrado a propina e devolveram parte do valor. É uma maneira válida de arquivamento de processo para a Justiça suíça – o que não pode, em hipótese alguma, ser um salvo-conduto de inocência para Ricardo Teixeira, como pareceu na reportagem.

No restante da matéria, a suposta disneylândia que teriam sido os 23 anos de gestão dele, na visão da emissora: a matéria cita os 112 títulos em várias categorias do futebol conquistados em sua gestão e os 271 milhões de reais de faturamento da CBF.

O fato de o futebol ter sido relegado a segundo plano frente aos negócios, e da desorganização mafiosa que é o futebol brasileiro atual, com clubes com pouca saúde financeira que brigam entre si por bobagem, e federações estaduais que vivem de esmola e nada fazem para a melhoria do esporte, nada disso foi tema do epílogo da gestão Teixeira na Rede Globo.

Merval poetizou

Mas o melhor da emissora fundada por Roberto Marinho ocorreu na Globo News, o canal de notícias da emissora na tevê paga.

Merval Pereira, o jornalista e leão de chácara verbal de plantão, cumpriu muito bem o seu papel de assessor de imprensa informal da Globo e chorou rios de desilusão com a saída cartola.

Já saiu logo defendendo-o: “Esses problemas de denúncias contra o Ricardo Teixeira vêm de longe e ele enfrentou com tranquilidade e sempre conseguiu superar essas denúncias”. E prosseguiu, mais para o fim: “Então resolveu tirar o time porque viu que não tinha condições de recuperar, como várias vezes se recuperou, o prestígio político”.

Menção ao buraco que Teixeira representou na vida do futebol brasileiro, nada. No máximo, dise que ele é culpado pelos atrasos na organização da Copa. Ou seja, o ex-chefão da CBF passou de hecatombe gerencial a levemente incompetente, o que, frisa-se, ele também é.

A cobertura da Globo parcialmente em favor de Ricardo Teixeira, que garantia só se preocupar com o que o Jornal Nacional diria sobre ele (desdenhado das críticas recebidas pelos veículos “traço de audiência), expõe a incestuosidade que fez a Fifa ter o poder que tem, mesmo sendo tão suja. A partir do momento que a empresa compra os direitos de transmissão da Copa do Mundo, um novo mundo cor de rosa passa a dar a tônica do futebol. É o que ocorre com a Globo.

A maior emissora do País já mostrou diversas vezes que sabe fazer jornalismo quando quer. E para o azar de todo mundo, isso fica relegado a enésimo plano quando os interesses comerciais da emissora estão em jogo. Uma derrota acachapante para o jornalismo.

- Por Fernando Vives, na CartaCapital

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