O Blaxploitation ficou conhecido como o gênero de cinema que mostrava os guetos negros dos EUA nos anos 70, levando para as telas de todo o país a maneira de eles se vestir, falar, ouvir música, enfim, toda a cultura negra na cidade grande e a forma de resistir a uma cena de repressão, segregação e racismo que vinha de longe
por Alexandre Duarte Fotos divulgação
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Esses filmes ganharam características próprias, eram dirigidos e interpretados por atores negros, tinham trilhas sonoras sofisticadas e fantásticas, compostas por alguns dos maiores artistas da época e abarcavam muito mais coisa do que se pode ver à primeira vista. “Os filmes blaxploitation geralmente têm um herói ou heroína afroamericano que atua à margem das instituições e da lei. Para vencer suas batalhas, o herói blax jamais recorre à polícia ou a qualquer outro aparelho governamental, mas sim a grupos de ativistas negros, como o Panteras Negras.
Nos filmes, nenhuma instituição oficial é confiável ou tem interess e legítimo pelo que se passa nas comunidades afroamericanas. Os problemas das comunidades negras só são resolvidos pela ação direta d os próprios membros de ssa comunidade” , explica o produtor cultural Zeca Azevedo, c olecionador de filmes do gênero.
Para ele, a origem do blaxploitation está lá atrás, nos acontecimentos que transformaram a vida dos afroamericanos no século XX, como o grande movimento migratório dos negros do sul segregacionista para os centros urbanos do norte, que também viviam em climas e gregacionista, porém, mais velado. A partir daí surgiram as grandes comunidades negras, mais tarde transformadas nos guetos retratados pelos criadores do cinema blaxploitation. O resultado desse êxodo foi o aparecimento da música antes do cinema negro. “A indústria musical, cujo principal produto, o disco, requer gastos de produção bem menores que os de um filme, saiu na frente e registr ou com sucesso as vozes negras desde o início. O blues e o jazz se tornaram rapidamente o esteio da indústria fonográfica norte- americana.
A presença das vozes afroa-mericanas nas rádios e nos aparelhos de reprodução de discos pelo mundo afora mostrou a capacidade dos artistas negros de ocupar grandes espaços na cultura industrial, mas a indústria cinematográfica decidiu, com pequenas exceções, ignorar a e xperiência social e o talento dos artistas negros durante cerca de 50 anos”, conclui Zeca.
O músico Ed Motta, fã assumido do gênero, principalmente pelas belas trilhas sonoras que deram chance para grandes arranjadores de jazz e soul nos cinemas |
UM NOVO FILÃO
Um anseio e uma pressão não declarados já pediam pelo aparecimento de um movimento que retratasse a sociedade afro-americana nas telas de cinema em uma cultura que adquiriu um domínio tão completo da arte cinematográfica. O surgimento da briga pelos direitos civis e o basta que a comunidade negra queria dar à segregação racial foram importantes para isso, um processo que começou nos anos 50, e só ganharia a tela de maneira definitiva em 1971.
Apesar de experiências anteriores com produções com diretores e elenco totalmente negros (o primeiro filme assim data de 1919 e se chama The Homesteader), foi a aventura pessoal empreendida pelo fotógrafo e ativista Melvin Van Peebles, que é considerado o marco zero do blaxploitation. A produção Sweet Sweetback’s Badaaasss Song reunia pela primeira vez todas as características que definiram o gênero: produção independente de baixo orçamento, tendo como personagem principal um anti-herói negro em conflito com o poder estabelecido. E claro, uma trilha sonora matadora do Earth, Wind and Fire. Para o músico Ed Motta, fã assumido deste tipo de filme, a coisa também tem outra fonte de origem.
“Acho que os próprios filmes definidos como exploitation, de diretores como Russ Meyer, que dirigiu coisas como Faster, Pussycat! Kill, Kill!, com suas cenas de violência, mulheres armadas, inspiraram o surgimento do blaxploiation”, diz Ed, mas concorda que Sweet Sweetback’s Badaaasss Song foi fundamental para que o gênero fosse aceito e assimilado. “Foi emblemático por ser progressista, o primeiro. Esses filmes mostravam a verdade dos anos 1970 dentro da comunidade negra, um retrato de seus costumes e hábitos. Eu já curtia a música e foi mais um contato com isso que eu era fissurado”.
A partir do filme de Melvin Van Peebles, e com a porta aberta graças às filas que o público formou nas portas dos cinemas para assistir a obra, a indústria cinematográfica percebeu que havia ali um nicho a ser explorado e abriu suas portas para que outras produções do mesmo estilo surgissem e a sequência de títulos se tornou longa, com filmes - alguns muito bons, outros nem tanto - surgindo na esteira dessa nova descoberta. Mas uma coisa que era quase unanimidade eram as ótimas trilhas sonoras que apareceram. “Claro que alguns filmes eram melhores que os outros, e esses se sustentam, tinham bons enredos e tudo mais. Nas trilhas foram as primeiras produções a darem chance para os grandes arranjadores de jazz e soul no cinema. Antes disso, só Quincy Jones havia aparecido. Esses filmes refletiam a importância da música nas comunidades negras”, conta Ed Motta.
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